Estudo mostra que é possível prevenir e fazer regredir problemas cardíacos.
Postada em: 27/08/2011
Fonte: Correio Brasiliense - DF

Dizem que alguns mitos e mesmo verdades científicas nasceram para serem derrubados, e não seria diferente com os que rondam a insuficiência cardíaca. Aos portadores da doença, por exemplo, é vedada a prática de atividades físicas porque o esforço repetitivo dos exercícios contribuiria para um agravamento do quadro e a necessidade de internação do paciente. Ao contrário do que se propaga, porém, os exercícios aeróbicos podem minimizar e auxiliar na prevenção da atrofia da musculatura cardíaca, de acordo com um estudo da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da Universidade de São Paulo (USP). A doença afeta 23 milhões de pessoas no mundo e 5,6 milhões no Brasil. É caracterizada pela incapacidade do coração de bombear o sangue e manter o fluxo metabólico. Assinado pela aluna de mestrado da USP Telma Fátima da Cunha, sob a orientação da professora Patrícia Chakur Brum, o trabalho descreve como o ato de fazer exercícios em esteira, ou em outros espaços, diminui a atuação do principal sistema de degradação de proteínas intracelulares, o da ubiquitina-proteassoma, que contribui para a atrofia muscular. O estudo utilizou camundongos que desenvolveram insuficiência cardíaca de forma progressiva. “São animais com a inativação gênica dos receptores Alfa 2-A e Alfa 2-C (responsáveis pelo aumento da frequência cardíaca e do fluxo de energia). Com o desligamento desses genes, os receptores causam o aumento da atividade nervosa simpática, o que acarreta, com o tempo, a insuficiência cardíaca”, define a pesquisadora. Os animais com a doença induzida foram submetidos ao treinamento físico em esteira desde os cinco meses de idade — durante a fase moderada da enfermidade — até os sete meses, quando apresentaram um grau severo da enfermidade. Os roedores que não treinaram, aos sete meses, apresentaram redução na área do músculo plantar (região posterior da perna) e piora em seu estado. Aqueles com a doença, mas que treinaram, apresentaram melhora da capacidade física indicando que o treinamento tem o mesmo papel em humanos. De acordo com a pesquisadora, o treinamento favoreceu o aumento da massa muscular e a redução do estresse oxidativo (desequilíbrio metabólico causado pela formação e remoção de agentes nocivos ao organismo). A segunda parte do estudo, realizada com pessoas portadoras da doença e saudáveis, da mesma idade, submeteu os voluntários a uma caminhada. Nesse caso, foi verificado que o esforço físico, além de aumentar o consumo máximo de oxigênio, melhorou a capacidade de geração de energia e reduziu a atividade do sistema ubiquitina-proteassoma. Isso fez com que se concluísse pela melhora do prognóstico dos pacientes, que costuma ser piorado pela atrofia. Mitos e orientações Telma explica ainda que foi percebido que o exercício físico aumenta o número de vasos sanguíneos e melhora a tolerância ao treinamento. “A relevância do estudo está na análise do principal sistema envolvido na atrofia muscular associado a doenças sistêmicas, que ainda não tinha sido investigado quando associado ao treinamento físico.” Como a atividade funciona como terapia coadjuvante, e não farmacológica, investigar como ela interfere nesse sistema de degradação de proteínas pode auxiliar no estabelecimento de protocolos que minimizem o estado atrófico do paciente, ressalta a pesquisadora. Para o cardiologista Bruno Ganen, existem muitos mitos relacionando a atividade física aos portadores de insuficiência cardíaca. “O paciente só não pode fazer o exercício se estiver em uma cama de hospital. Caso contrário, deve fazer sim, desde que de maneira supervisionada”, pondera. O médico afirma que, nesses casos, a prescrição da atividade depende da intensidade, das características dos pacientes, da causa da insuficiência e do grau da doença. “Tudo deve ser avaliado individualmente para que o paciente se proteja dos riscos. Na forma adequada e supervisionada por fisioterapeutas e acompanhada por médicos, o treinamento traz apenas benefícios para o paciente”, avalia. Centros de reabilitação O especialista acrescenta que a atividade física aeróbica altera a forma com que o corpo reage à doença, sobrecarregando menos o coração. “A atividade pode melhorar a qualidade de vida do paciente e até evitar a progressão da doença, por isso é melhor começar desde cedo”, aconselha. O cardiologista Cantídio Lima Viera diz que a reabilitação cardíaca é realizada para melhorar a condição do paciente para as tarefas do dia a dia. “A pessoa com insuficiência cardíaca tem dificuldade para realizar atividades simples, como andar. Essa reabilitação, portanto, serve para condicionar esse coração para suportar essas atividades.” Segundo ele, sem esse trabalho, a evolução do quadro clínico e a reinternação serão mais frequentes. De acordo com o fisiologista clínico Ronaldo Cascrioto Lemos, o exercício pode ser prescrito em todos os graus da insuficiência cardíaca. Ele explica que o portador da doença é exercitado abaixo do limite do coração. “Trata-se da técnica do trabalho progressivo de suporte funcional, que melhora a resposta e a estrutura cardíaca desse paciente”, afirma. Para Lemos, com os exercícios é possível aumentar a taxa de sobrevida do paciente. Por exemplo, fazendo a atividade na água, na bicicleta ou na musculação assistida, o treinamento é progressivo, ele tende a estimular o paciente, e o coração, a aceitar melhor aquele esforço. Com isso, o condicionamento do órgão também aumenta. “Atendo pessoas com problemas cardíacos que, após a reabilitação do coração, conseguem se esforçar quase na marca de pessoas sem a doença”, garante. Contra a fadiga O sistema ubiquitina-proteassoma está associado à atrofia muscular também em outras doenças sistêmicas, como câncer, insuficiência renal e diabetes. O dano ao coração desencadeia aumento da inflamação e do estresse oxidativo, culminando em diversas alterações no músculo esquelético, inclusive, redução da força. Esses fatores, associados à redução do fluxo de sangue aos músculos, tornam o paciente com insuficiência cardíaca mais intolerante ao esforço físico, aumentam a fadiga e geram perda de massa muscular, caracterizando a atrofia.

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